23 dezembro, 2007

Esperar

"Quem espera sempre alcança" é mentira. Esperar não chega, como não chega fazer tudo o que está ao nosso alcancepara obter qualquer coisa, mas sem esperança. Aqui tanta coisa se mistura e evoca- a fé, por exemplo, ou a confiança em nós próprios que se torna difícil falar.
Ensinaram-me um verbo cuja beleza demora a compreender: CATIVAR. Não é aprisionar, reter ou enredar. É pôr passo ante passo, cada um mais bem pensado e sentido que o anterior, para conseguir que uma coisa ou alguém se propricie a virar para o que somos, queremos, onde estamos ou precisamos de ir. Pois a verdadeira esperança consiste em cativar, calmamente, o destino.
Não é forçá-lo - é uma insinuação. Se o destino nos dá um encontro, se nos apresenta a possibilidade de um amor, por pessoa ou obra, que nos move e nos faz desejar chegar a ela; é preciso continuá-lo, devagarinho, por nossa própria acção. Não é o destino que precisa de uma ajudinha ou dum empurrão - somos nós.
Esperar é correr o risco de falhar, de tudo perder - mas que importa isso, se se corre o risco de tudo conseguir e de ganhar? Toda a esperança traz dentro dela uma imagem bonita, uma imagem de bem. Seja de um amor perfeito ou dum país feliz. Não se pode traí-la, despachando-a ou escondendo-a. É preciso persegui-la. Muito. Devagar. Como se essa imagem, à imagem da nossa esperança existisse.
Miguel Esteves Cardoso (Explicações de Português)

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